No FSM de 2004, Saramago participou de uma mesa redonda com E. Galeano e mais um político que só fazia citar frases prontas de escritores famosos.
Eu e mais não sei quantas centenas de pessoas expremíamos num ginásio em Porto Alegre, ávidos por ver e ouvir. Confesso q pouco vi, e muito anotei do que ouvi. Que é o seguinte:
O tema da mesa: O sentido da Utopia
Saramago: "Eu não sou utopista.
A utopia é uma mentira tanto quanto a idéia de que, quando morremos, vamos para o paraíso.
Utopia nasce sem dom indissociável dela: revitalização e reinvenção da democracia.
Utopia não significa rigorosamente nada.
Miremo-nos em Quixote. Farto da vida, decide mudar radicalmente.
Se se comporta como um louco, tudo lhe é possível por ser louco.
Sancho: não é burguês, mas escandaliza-se como se fosse.
"Que vida autêntica está em outro lugar?" (Rimbaud)
Dom Quixote não é utópico, talvez tenha um intento utópico. É pragmático (talvez). As palavras são muito desgraçadas.
A política é a arte de não dizer a verdade.
Utopia: discurso não existente.
Eu sou consciente do que não posso ter agora e hei de tê-lo mais tarde.
Vivemos de crenças.
Nada a ver com razão.
Tira-se sangue do dinheiro
e dinheiro do sangue.
Imaginar: o que precisamos hoje, desejamos hoje, podemos realizar em 2043 (talvez 2043 sejá muito perto)
O dia de amanhã é a nossa utopia
com relativa esperança de que estaremos vivos.
Revisão criteriosa e rigorosa de conceitos: a esquerda precisa primeiro do conceito do que é a esquerda.
Tudo se discute, exceto a democracia.
Santa no altar.
A que vivemos é seqüestrada, condicionada.
O poder da cidadão limita na esfera política o que não gosta e que talvez outro possa gostar.
Quem escolhe representantes de grandes bancos e organizações mundiais?
Não é democrático.
Utopia, não fosse Utopia, seria trabalho,
objetivo
vontade
determinação.
Propostas agora, não divagar."
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